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Quarta-feira, Novembro 26, 2008
GAROTA INTERROMPIDA.
Era incapaz de sonhar. O azul de seus olhos me dava medo, mas apesar de tudo me via cada vez mais apaixonado por ela. Criatura estranha, egocêntrica, e irritantemente maquiavélica. Tão maliciosa quanto eu, irresistível. Ela era assim, um sonho pra mim. Mas aos poucos vi esse sonho ficar cada vez mais distante, perdia o ar. Onde estará a luz que iluminava os meus dias? Lembro-me bem de cada noite que passamos juntos, cada palavra sussurrada no ouvido ou cada reação a cada movimento meu. Seu sorriso doce foi novamente substituído por um olhar duro, frio, tão seco quanto às folhas alaranjadas que agora caiam lentamente pela rua. Seu sorriso debochado e cheio de maldade voltou a reinar em sua face. Estava fora de si. Cada passo que esta dava só pra distanciar-se de mim abria um buraco dentro de mim. De repente um desespero me invade, uma vontade de abraçá-la novamente dizer que estou aqui para tudo que precisasse. Mas ela, não queria mais o meu apoio. Não tinha coração, não tinha alma. Vagava pelas ruas completamente sem rumo, não pensava, não falava. Não fazia nada que pudesse abalar a sua paz interior que nem sequer existia mais. Cada vez mais vazia, largada, não se importava com nada afinal. Somente com o seu maldito vicio que a consumia por inteiro, só ela não percebia. Claro, não havia como, era uma semimorta. Cada gota de heroína que diluía em seu sangue era uma gota de morte, uma gota que representava o seu desespero de uma forma tão triste. Não havia mais vida dentro dela, era apenas um corpo vazio dominado pela pior praga.
Foi a menina mais talentosa que conheci afinal. Tocava violão, escrevia bem, tinha opinião própria e era bonita. O que mais poderia pedir? Era perfeita pra mim. Cantava tão bem quanto um rouxinol pela manhã de primavera. E era tão sutil que me deixava excitado. Seu alemão fluente me deixava feliz, assim como cada fio de cabelo castanho amendoado e ondulado que ela insistia em colocar para trás. Sua forma de falar me tranqüilizava. Era perfeita.
Mas no instante que a vi inconsciente pela primeira vez, tão fria, com tanto rancor. Gritava como uma louca, não queria viver. Tinha marcas de violência feitas por ela mesma nos braços. No instante em que a vi fora de si novamente, senti como se uma parte de mim agonizasse da forma mais lenta e triste possível, sentia que uma parte de mim morria.
postado por: Anna Beatriz de Mello Moraes 7:35 PM